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Critério de aceitação: quem define se a peça passou?
Publicado em 15/10/2026
Resposta rápida: o critério vem da especificação do produto ou, às vezes, da própria norma, como no grau de IP. O laboratório só declara aprovado ou reprovado se o critério e a regra de decisão foram acordados antes.
"A peça passou?" é a pergunta que todo cliente faz ao receber o relatório. A resposta depende de uma coisa que precisa ser combinada antes do ensaio: contra o que a peça está sendo julgada. Nas propostas da Labmor, o critério definido pelo cliente aparece em quase uma centena de projetos fechados — e a falta dele é um dos motivos mais comuns de conversa depois do resultado.
Norma de método × especificação de produto
É útil separar dois tipos de documento:
- Norma de método diz como fazer o ensaio: equipamento, condições, procedimento, o que medir. Exemplo: a ASTM B117 descreve como operar a câmara de névoa salina, mas deixa explicitamente para a especificação do produto o tempo de exposição e a interpretação do resultado.
- Especificação de produto (do cliente, da montadora ou uma norma de produto) diz o que é aceitável: "após 480 h, sem corrosão vermelha no metal base", "sem perda de função", "variação de dureza de no máximo X pontos".
O laboratório precisa das duas. Sem a especificação, o relatório traz o que aconteceu — fotos, medições, observações —, mas não um veredito.
Quando a própria norma traz o critério
Algumas normas de ensaio já incluem o critério. O exemplo mais conhecido é o grau de IP pela IEC 60529. Para a poeira e o acesso a partes perigosas, cada numeral traz o seu critério; para a água, a norma dá condições gerais — se entrou água, ela não pode, por exemplo, atrapalhar o funcionamento, comprometer a segurança nem alcançar partes vivas — e deixa para a norma do produto dizer quanta água se tolera. Por isso a norma do produto ou o cliente pode ser mais exigente ("nenhuma gota no interior").
Em pintura e corrosão, há normas de avaliação que dão uma escala, mas não o limite: a ISO 2409 classifica a aderência por corte em grade numa escala de seis classes, e a série ISO 4628 dá graus para empolamento, enferrujamento e outros defeitos. A especificação diz qual classe ou grau é aceitável.
O que a ISO/IEC 17025 pede
A ISO/IEC 17025, norma em que a Labmor é acreditada, trata disso em dois pontos:
- quando o cliente pede uma declaração de conformidade (passou/não passou), a especificação ou norma e a regra de decisão precisam estar claramente definidas, e a regra é combinada com o cliente — a menos que ela já venha embutida na própria norma ou especificação;
- o relatório que traz a declaração precisa dizer a quais resultados ela se aplica, a qual especificação se refere e qual regra de decisão foi usada.
A regra de decisão importa quando o resultado fica perto do limite. Se a especificação pede no mínimo 10 MPa e o resultado é 10,1 MPa com uma incerteza de medição de 0,3 MPa, a peça passou? A resposta depende da regra combinada: aceitação simples (vale o valor medido) ou com banda de guarda (o valor menos a incerteza precisa ficar acima do limite).
Critérios visuais: o que precisa estar escrito
Critério do tipo "sem alteração visual" ou "sem corrosão significativa" é a principal fonte de divergência. Para que o laboratório consiga aplicá-lo, a especificação deveria dizer:
- o que é defeito: corrosão vermelha no metal base, corrosão branca no zinco, empolamento, trinca, mudança de cor;
- onde vale: superfície significativa, área de vedação, borda de corte (que muitas vezes é excluída);
- como se olha: a olho nu, a que distância, com que iluminação, comparado com padrão fotográfico ou com amostra de referência não ensaiada;
- quando se olha: só no fim ou também em inspeções intermediárias.
Em corrosão, um caso típico: a especificação pede "sem corrosão vermelha após X horas", mas não diz se a borda cortada e os furos entram na avaliação. Combinado antes, isso vira uma linha no relatório; descoberto depois, vira discussão.
Critérios funcionais
Em produtos eletroeletrônicos, o critério costuma ser funcional: o produto opera como projetado durante e depois do ensaio, ou aceita-se um desvio temporário que se recupera sozinho. A ISO 16750-1 organiza isso em cinco classes de status funcional, da A (tudo funciona durante e depois do ensaio) à E (o produto só volta a funcionar com reparo ou troca), e a especificação diz qual vale para cada ensaio. Veja o produto precisa estar ligado durante o ensaio?
Quando não há critério
Às vezes o objetivo do ensaio é justamente descobrir o comportamento — comparar dois fornecedores, ver em quantas horas a corrosão aparece, ajudar a escrever a especificação. Nesses casos o relatório traz o resultado sem veredito, e isso é correto. O que não funciona é pedir um ensaio sem critério e esperar um "aprovado" no relatório.
Como evitar problema
- Envie a especificação com o critério junto com o pedido.
- Se o critério for visual, combine a forma de avaliação e, se possível, envie uma referência.
- Se o resultado pode ficar perto do limite, combine a regra de decisão.
- Se não houver critério, deixe claro que o relatório será descritivo.
Para montar a lista de ensaios e critérios do zero, veja como montar o plano de ensaios (DVP&R).
